Entrevista com Yagé, o novo live da 4AM.

Raghini, Ashika e Ninad

0. O que significa o nome “ Yagé ”?

0-Yagé é o nome que certas tribos indígenas dão a Ayahuasca : bebida sagrada que ajuda a se conectar com o mundo espiritual e o reino natural, reconhecimento além da individualidade. Escolhemos esse nome por isso e porque essa bebida é composta dos elementos feminino e masculino ( folha e cipó ) , também pela sonoridade selvagem do nome , todas características que queremos que estejam presentes também na música .

1. Contem um pouco sobre a história pessoal de cada um de vocês e sua relação com a música.

1-Ninad : nasci numa cidade de praia da Argentina faz 38 anos, meu avô era violeiro de tango e minha mãe tocava também. Comecei a tocar o violão na adolescência. Passava horas viajando nos sons, tirando e inventando melodias, curtindo mesmo. Fiquei surpreso com os bons momentos é o prazer que a musica podia me dar… Essa sensação foi crescendo e se intensificando ate o dia de hoje, quando passo horas no estúdio fazendo musica , quando toco violão numa fogueira com os meus amigos ou tocando nas festas. É uma parte fundamental da minha vida, uma das maiores fontes de prazer que conheço .A música tem me dado muito: amigos, amores, viagens…e muita diversão.

Raghini : herdei do meu pai o amor pela música e da minha mãe o prazer de dançar. Sempre cantei. Quando tinha 9 anos comecei a estudar música até me formar como professora de educação musical. Depois de viajar um pouco por sudamerica, fui largando aos poucos as partituras para entrar numa outra dimensão musical, mais experimental, onde achei lugar pra criar e me divertir.

Ashika: Nasci na Alemanha e estive viajando por uma boa parte da minha vida. Eu estava curtindo música eletrônica na Alemanha desde `90, e nos anos seguintes em Goa. Me levou a passar 10 anos mágicos estudando música e meditação na Ásia.

No final acabei escolhendo o Brasil como meu lar, onde vivo desde 2000, o ano de formação do Yagé. Meu interesse nas raízes tribais do trance me levaram a explorar os sons harmônicos gerados por instrumentos xamânicos de várias tradições do planeta.

2. Como se formou o Yagé?

2-Ninad :Yagé se formou no ano 2000 no Alto Paraíso , depois da primeira Trancendence . Na vontade de materializar um som que já estava na nossa cabeça e na de alguns outros amigos. Um trance mas tribal, integrando instrumentos primitivos e eletrônicos, ritmos primais, quentes.

Fazia anos que a gente curtia as festas de Trancoso , na nossa imaginação já se misturava aquele goatrance dos anos 90 com o som do berimbau e os ritmos mas sincopados da musica afrobahiana .

No começo éramos Raghini e eu, com outros músicos que iam passando…(Gogo de Muamba, Athã dos System Brothers) no ano 2001 o Ashika chegou em Alto Paraíso,vindo da Índia e entrou no projeto com muita força tocando percussão como harpa de boca e didgeriddoo…

Na trancendence 2 no ano 2001 chegamos a nos apresentar com uma formação de 6 músicos, percussão, 2 berimbaus, sinthes, vocais, flautas: uma loucura pra uma pista de dança…Foi bacana. Uns meses depois de isso encontramos nossa formação atual, alguns foram desertando e o Ashika assumiu também o berimbau e toda a percussão, trazendo precisão e punch.

3. Qual a função de cada um no processo de produção e nas apresentações ao vivo?

3-Raghini : Ninad compõe e produz no estúdio; no palco toca sinthes, controla sequencers e faz a mixagem geral equalizando e equilibrando os sons eletrônicos com os instrumentos que Ashika e eu tocamos ao vivo. Ashika toca percussões eletrônicas, berimbau, harpa de boca, sikus e berrante (por enquanto isso , mas não demora em aparecer com outro instrumento exótico desses que ele descobri nas suas viagens). Eu toco flauta e canto .

Ninad : além de ser uma vocalista incrível e uma flautista bem criativa e com muito groove a Raghini e uma parceira musical extraordinária , da um aporte melódico muito valioso no estúdio… Ashika é um instrumentista extremamente preciso e muitas vezes sutil que sabe interpretar o espírito mesmo do som do Yagé , traz muita energia ao projeto .

4. Como funciona o processo produtivo de vocês? Os instrumentos são gravados separadamente?

4-Ninad : cada musica é diferente, a gente vai como que pescando elas no astral. As vezes começa com uma melodia da Raghini , eu monto uma bassline e um ritmo básico, depois o Ashika grava a percu e eu fico no estúdio trabalhando com isso até a musica ficar pronta. Outras vezes o processo e o inverso, começamos a partir de um riff do berimbau , eu faço a parte eletrônica é a Raghini canta no final. Uma boa parte das nossas musicas nascem da linha de baixo,e de uns sinthes.

Raghini : muitas vezes quando chego no estúdio o Ninad inspirado já fez quase uma musica completa . Aí eu procuro melodias escondidas nos efeitos dos sinthes ou pego as notas do baixo para tocar uma variação na flauta , brinco com uma célula rítmica do break e por aí vai.

Ninad: A vezes o começo da música é só uma imagem o uma idéia , por exemplo: Mangaba .a idéia de algo gostoso,uma fruta ,um corpo…

Ashika: Gostou gravar umas seqüências de percussão aguda, como bongos e wiro, simples e marcante procurando criar um hook.

Ou uma parte pra um instrumento clássico tribal pra criar um efeito hipnótico que pode servir do mesmo jeito.

5. Atualmente, onde estão morando? E onde se reúnem para produzir?

5-Raghini : Ninad e eu moramos no Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros, lá é muito bom pra produzir, pra inspiração … tem tudo a ver com a onda do Yagé , essa coisa de mato, de cores brilhantes.

Ninad: Ate agora Alto vem sendo nossa base…porem já passamos tempo produzindo no Rio da Barra perto de Trancoso…ou em Minas…Agora estamos com vontade de passar um tempo produzindo em Floripa tbm…

6. Em 2006, vocês tiveram a oportunidade de tocar em festivais europeus (Sonica e Voov). Como foi esta experiência?

Ashika: As festivais da Europa são grandiosas, fui uma experiência.Decoração com conceito, amigos do mundo tudo, sonsera…No Sónica Yagé fui bem recebido. Aplicando o berimbau psicodélico, os gringos piraram! Também tava lá o First Stone e Burning Noise, que tocaram sets memoráveis. Ficamos orgulhosos de nos sentir parte da delegação brasileira, no meio das oliveiras nessa terra antiga charmosa na norte da Itália.

A Voov pra mim fui o clímax, ainda o festival mais autentico Goa com muito coração uma estrutura impressionante e o lazer show de Pink Floyd… Muita emoção apresentar no meu próprio pais, antigos amigos da índia e minha família reunidos.

Ninad: Alem de tocar nos festivais aproveitamos também pra viajar bastante…tocar na rua, acústico mesmo, violão, percussão e voz…tocamos ate num templo Romano de 2000 anos de antiguidade..foi um barato.

7. E quais os planos para 2007? Pretendem lançar algum álbum?

7- Sim…vamos a lançar um álbum daqui a pouco..já está praticamente pronto.

8. Suas músicas são marcadas pela influência tribal e sonoridades selvagens. Quais são suas influências?

6- Ninad: a gente está na procura de um som, de uma paisagem sonora. Tanto a bass-line ou os sinthes quanto os ritmos tribais o afro latinos, os instrumentos primitivos, as melodias, etc.,são elementos pra pintar esse quadro, recrear essa paisagem, transmitir essa sensação. Então, as nossas influencias são variadas, dentro do trance agora estou curtindo muito coisa como Panick, Headroom e AMD também som de amigos como Ital, Patchbay, Hiperceptiohm, Cosmonet. Olhando pra trás acho que Hallucinogen e Saiko Pod foram grandes influências. Já fora da musica eletrônica a nossa maior influência é a musica de raiz de diferentes culturas que já tem a idéia do trance. A musica de capoeira de umbanda, os ritmos afro em geral são importantes na construção de nosso groove.Tem linhas de baixo inspiradas no funk africano, como Fela Kuti.

Alem dos berimbaus e as coisas mais na cara muitas tracks tem sinthes tocando um ritmo como palmas de capoeira o as claves da musica cubana só que com um som ácido. Acho que isso da na nossa musica um balanço especial que a pista sente e curte.

Raghini: a musica dos rituais de ayahuasca é uma grande influencia: as melodias circulares… como em Satori .

9. O Yagé é bastante requisitado para tocar em festivais. Vocês acham que sua música combina mais com os festivais do que com as festas?

Ninad: na real a nossa música combina tanto com festas quanto com festivais…. talvez nos festivais todo o clima seja diferente, tudo mundo fica mais relax… mas as festas tbm são ótimas… são coisas que se complementam.

10. Qual a principal diferença entre a produção de psytrance e de quando estão produzindo músicas para seu live de chill out?

10-Raghini : A gente faz chill-out na mesma linha da pista, psicodélico e trance, quer dizer, assim hipnótico, circular, tudo entrelaçado sabe? No chill-out também é muito bom pra fazer melodias cumpridas, tocar mais flauta o até pra cantar no formato de canção, dá pra ficar bem solto na real, bem free. Não tem a exigência da pista que tem que bombar, mas também gostamos de manter a energia bem pra cima no set alternativo, e só mais lento mas procurando a mesma intensidade que no dance-floor.

Ninad : O ritmo básico na pista é o kick em 4x4, em torno ao kick e o baixo que toda a música vai se montando,focando bastante na pressão e nas diversas situações de dança…Tipo assim; a gente fica imaginando como a pista vai reagir a cada parte do track…as vezes dançando de um jeito mais trance outras rebolando ou pulando, sei lá.

Já quando estamos produzindo num mid ou down tempo o kick pode variar,ficar mais sincopado…Fica mais fácil dar um outro balanço nas músicas,outro swing….tem coisas que a 145 bpm não funcionam muito bem mais a uma velocidade mais lenta sim…..Por exemplo as batidas estilo Olodum…

De qualquer jeito nossa intenção continua sendo fazer música pra dançar…pra se divertir…tudo bem que as vezes a galera vai no chill out descansar ou apertar um, conversar…Ali estaremos nos tocando música com um forte apelo rítmico… fazer o quê?

11. Além dos projetos de trance e chill out, vocês também fazem parte do grupo Mantric Mambo. Falem sobre este projeto e os integrantes do grupo.

Ninad: Mantric Mambo e um outro projeto…bem diferente do que é Yagé…Está formado basicamente por Ambhika, Raghini,Yatra, Pablo e eu. Ashika participa esporadicamente e faz importantes aportes técnicos no nosso primeiro(e ate agora único) disco e providencio o estúdio.

A idéia do projeto é gravar as músicas que tocamos nos rituais de ayahuasca do Templo Mãe da Água…Tentando reproduzir no estúdio o jeito como a gente percebe a música quando está sobe o efeito do chá…

Diferente de Yagé, Mantric Mambo trabalha encima do formato de canção, com letras, refrão etc.

O som também é hipnotizante só que bem mais ambient.

Raghini: Ninad toca violão e baixo, Pablo toca violão e guitarra, Ambhika,Yatra, Komala e eu cantamos, Ashika toca percussão e berimbau, ahh também toco flauta .

As músicas do mantric mambo são preces,orações….

12. O Mantric Mambo possui algum CD lançado? Se sim, quando foi lançado e qual o nome?

Sim…Foi lançado no fim do 2003 e se chama Music from the world of ayahuasca. ( escreve pra raghinicarla@yahoo.com.br )

13. O que vocês gostam de escutar em seu tempo livre?

Ninad: na real gosto mesmo de escutar psy trance…é o que mais curto… Lógico que pra variar também escuto outras coisas…por exemplo Flanger,Señor Coconut…ou então Shpongle, Eat Static, Ott, também Dub….coisas tipo High Tone…Ska instrumental tipo Skatelites.

Da música Brasileira tem coisas que adoro como Vinicius de Moraes..na época que estava com Toquinho…os Afro sambas,Baden Powell…tem uns discos de Caetano que levaria pra uma ilha deserta também…por exemplo Qualquer Coisa…ou Livros que tem uma percussão incrível.

Tem tanta música gostosa!Gosto de ouvir música caribenha, cubana, colombiana….depende do dia, da companhia.

Faz pouco tempo andei ouvindo uns projetos de novo tango ou tango eletrônico como Tangheto e Bajofondo…

Essa pergunta é foda pois tem tanta coisa que escuto: Beatles, Rockabilly, The Clash, Miles Davis, Ojos de Brujo….melhor deixar pra lá.

Raghini : Eu escuto tudo que escuta Ninad menos The Clash! Rsss . O outro dia me empolguei com a musica do Poderoso Chefão, procurei na internet e escutei durante uns três dias muuuitas vezes , atei peguei a letra da musica e cantei, cantei.

Ashika: Tangerine Dream, Klaus Schulze, Kraftwerk, Jean Michele Jarre me mudaron…e uma boa parte da collecao de Vinyl dos ´70 que o ex-namorado da minha mae tinha deixado…E mais tarde Prince, Santana, Weather Report, Tom Waits, New Wave, Madness, Depeche Mode etc.

Hoje curto Psy, Prog, Minimal Techno, mais também levo muita inspiração do Reage novo, como Dancehall, o som das rodas de capoeira,Chico Science, Maracatu e Samba…e musica clássica indiana.

14. Vocês vêm de diferentes países. No entanto, criaram raízes no Brasil. Como explicar esta relação com o país?

Ninad: o Brasil é ótimo…bom clima, boa música…o povo é legal demais… Quando a gente ta na Europa ou na Argentina e comenta que mora no Brasil a galera fica babando….

Ashika: Teve a sorte de conhecer os lugares mais lindos do mundo pra se viver, mais nada igual o Brasil, este espelho perfeito da humanidade inteira! Que mais? Achei a mulher da minha vida e to louco pra minha filhinha de oito meses, Sarah.

Raghini : eu gosto de morar é aqui mesmo, que nem vocês, ué! ;)

posted : Friday, January 11th, 2008

tags :